Deitada no sofá, de pijama, a pensar que em ficando muito quietinha aquilo havia de acabar por acalmar, e eu havia de dormir muito sossegadinha aquela última noite, e às nove da manhã, como combinado com a médica, lá estaria no hospital para aí sim, entrar em trabalho de parto.
Há nove anos daqui a uma hora, estávamos a parar o carro na Av. das Forças Armadas porque a estrada estava cortada pela polícia, e foi um Dito-Cujo aflito que me perguntou, e agora? Agora? Agora explicas que levas uma mulher em trabalho de parto. Há nove anos daqui a uma hora, já me tinham rebentado as águas e eu nem tinha dado por isso.
Há nove anos daqui a uma hora e dez minutos, estava a entrar na Cruz Vermelha tão, mas tão aflita, que olhei para o segurança da entrada, e disse-lhe cúmplice,"estou tão aflita".
Há nove anos daqui a uma hora e meia, já tinha a minha médica comigo e perguntava-lhe de trinta em trinta segundos pela prometida epidural, e elas a dizerem que era só um bocadinho, que já estava a chegar o anestesista. A chegar de onde, se a Dra prometera, prometera! que não ia doer, que as suas mulheres não sofriam para ter filhos. Pois lamentava informar, mas eu estava em sofrimento!
Há nove anos daqui a duas horas, a médica perguntava às enfermeiras pelo pediatra que não aparecia, e dizia não faça força e eu sem perceber nada.
Há nove anos daqui a duas horas e meia, estava capaz de ficar toda a noite a tagarelar, a falar do frio que estava nesse Inverno em que nevou em Lisboa, alheia ao facto de ter uma criança a tentar passar-me entre as pernas. Há injecções que parecem milagre.
Há nove anos, daqui a três, à ordem "faça força", perguntei se não tinha que ir para o bloco, então mas afinal não era uma mulher com a bacia mediterrânica em forma de pera e não sei quê, pelo quadril de quem não passaria nada? Como, parto normal? Eu queria a minha cesariana!
Há nove anos daqui a três horas e vinte e três minutos, ouvi a médica gritar "vai parir", senti que todo o meu corpo se desconstruía para depois se voltar a juntar e ouvi o melhor choro do mundo.