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terça-feira, abril 07, 2015

Diz que hoje se fala de adolescência

A minha experiência com adolescentes não é vasta. Cá em casa espero temerosa os primeiros sintomas, mas por enquanto sou só mãe de três crianças.
Por essa razão, a única adolescência de que posso falar com propriedade, é da minha própria.
Posso dizer que fui uma adolescente normalzinha. Idiota a tempo inteiro, parva a maior parte do tempo.
A começar pela escolha da indumentária.
Durante um ano vesti-me como uma viúva cigana, só que sem as nódoas, os buracos, e o lenço. Uma loja boa, era a que tivesse uma oferta variada de saias pretas até aos pés. A pancada da roupa preta durou até ao dia em que numa festa em que se falavam de trapos, alguém diz com ar irónico, "já a Xaxia está sempre a condizer, preto com preto".
Aquela merda ficou a martelar-me na cabeça. Estariam aquelas gajas a insinuar que eu me vestia de preto porque não sabia combinar mais nada?
Aproveitei o Verão e as férias grandes, que aquilo o preto fazia uma pessoa suar as estopinhas, e mudei radicalmente de estilo. No inicio do ano lectivo seguinte, apresentei-me de calças de ganga (sempre), camisas às riscas e aos quadradinhos muita pequeninos, ténis Redley e All Star. As cores andavam entre o azul escuro, o verde, o bordeaux, na loucura lá saía um rosa ou vermelho. O único requisito para além da limitada paleta de cores, era que tivessem comprimento suficiente para tapar aquilo que eu achava ser um rabo demasiado grande. Ah, e as calças de ganga tinham que ser Mustang, El Charro, Levi's ou Chevignon. De preferência da candonga, que assim escusava de explicar lá em casa a necessidade de adquirir calças de quinze ou vinte "contos". De caminho também expliquei à minha mãe que com a roupa preta podia fazer uma bonita trouxa para quem precisasse. Aliás, que me lembre, este foi um dos meus maiores problemas na adolescência, ter que passar a vida a explicar coisas aos meus pais.
Aos quinze comecei a namorar, aos dezasseis a fumar. E a tomar a pílula. Aos dezassete achei que ia mudar o mundo, aos dezoito concluí que o mundo era um sítio merdoso sem remédio e que Deus nos tinha entregues à nossa sorte, e tornei-me uma deprimida hipocondríaca.  Aos dezanove inscrevi-me pela terceira vez num curso diferente de engenharia, aos vinte mandei o namorado da adolescência à fava e comecei a sair à noite cinco dias por semana.
Em minha defesa, posso dizer que durante todo este tempo em que estava ocupada a ser uma adolescente com direito a entrada directa no quadro de honra da estupidez, mantinha umas notinhas de se lhe tirar o chapéu, e uma média que poderia ter dado para quase tudo, não fosse uma opção errada à última da hora. Parecendo que não, um filho com boas notas é outro sossego. Poupa-se uma data de massa em explicações, e não é preciso esperar nem que conclua o nono ano para ir para um curso "técnico-profissional" qualquer, nem que faça dezoito anos para ir para caixa do Pingo Doce, e as notas foram contrapartida para quase tudo, mas sobretudo para umas viagens bem fixes na Europa.
Não sei o que me reserva o futuro. Migalha Crescida começa a dar um ar da sua graça, mas é muito prematuro associar o comportamento dela dos últimos tempos ao tipo de adolescente que será.
Quando chegar a hora de lidar com alguém que é simultaneamente parvo e dono da razão, logo verei, mas o que espero, é ter a paciência, a tolerância e os calmantes certos no bolso.





13 comentários:

  1. Respostas
    1. Só assim? Um obrigado seco. A mim??? A UVA RAÌNHA????
      Ades cá bir, carago.

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  2. Que sinceridade, só revela que nem sempre um adolescente parvo se torna num adulto mais parvo. Gostei muito.

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  3. Acho que vou pegar nisto. Logo à noite, em tendo tempo.

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    1. Vai embirrar com as calças da candonga, não vai? Eu sabia...

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    2. A Picante só usa calças de griffe. Ela nem sabe onde era a Porfírios.

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    3. Ahahahahahahahah, exactamente!

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  4. Credo... eu era tão parva que até metia impressão... Mas, por outro lado, sabia fazer as coisas e em casa não dava confusão (boas notas, bem comportada e tal), pelo que, para os meus pais, era a filha ideal! Hehehehe, acho que era uma grande sonsa!

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    1. Eu era um bocadinho sonsa, mas a maior parte do tempo era mesmo a tentar explicar aos meus pais por a+b que eu era detentora da razão e eles pessoas completamente fora.

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    2. Ai eras sonsa? Comia sonsas ao pequeno almoço.

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