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quinta-feira, fevereiro 06, 2014

Ah, as criancinhas...

A nossa geração de mães está em frangalhos.
A nossa geração de mães está em frangalhos e a culpa é das criancinhas. Corrijo. A culpa não é das criancinhas, a culpa é nossa.
Nós é que colocámos a criancinha no centro do mundo. Nós é que transformámos um monte de merdas fúteis em necessidades básicas das criancinhas. Nós é que deixámos de passar as manhãs de sábado no cabeleireiro para correr entre a natação e a ginástica. Nós é que parecemos o cão de Pavlov, que a cada rodopiadela, salivamos com aulas de ballet, a cada cantarolar, respondemos com aulas de música. Nós é que não nos permitimos passar o fim de semana de pijama na cama, porque há sempre um filme, uma peça de teatro, um museu para levar as criancinhas, porque se as criancinhas passarem o fim de semana em casa vão chegar a segunda feira e vão estar hipo-estimuladas, atrasadas em relação a todas as outras criancinhas que viram tantaaaaas coisas e fizeram taaaaantas merdas.
Nós, mães, mulheres, deixámos de ser escravas dos maridos e dos casamentos, para passarmos a ser escravas das criancinhas.
A culpa é toda nossa.
De cada vez que não vamos almoçar com os amigos para  levarmos as criancinhas a mais uma festa de aniversário, sempre que organizmos a nossa agenda em função da agenda das criancinhas, quando não temos tempo para ir às compras porque as criancinhas nos engoliram o dia como se fossem leões esfomeados.
E dinheiro? Minhas amigas, pode não haver dinheiro para as madeixas, para o alisamento japonês, para a depilação definitiva, para aquela mala porque suspiramos há meses, mas tem que haver dinheiro para o pacote de TV que tem o canal Disney, para o videojogo que saiu, para os ténis de rodinhas, para os cereais de chocolate (porra, quando é que os miúdos deixaram de comer carcaças, pá?), para ir à Kidzania, para pagar a praia da escola, para o psicólogo quando estão estão tristes, ou não comem, ou comem demais.
A pressão que colocamos em cima de nós próprias e em cima umas das outras nesta competição desenfreada pelo troféu de mãe do ano é tanta, que damos por nós todas esbodegadas, sem tempo para ir arranjar as putas das unhas que não param de crescer, sem tempo para dormir uma sesta, ler um livro ou ver um filme que não meta carros que falam ou princesas da Disney.
E o pior, o pior mesmo, é que as criancinhas que começaram por não nos pedir nada, em três tempos estão aí a exigir, e servi-las e cobrir todas as suas necessidades muito pouco básicas, é a nossa inegável obrigação. E mesmo mesmo pior que tudo, é que nada disto faz de nós boas mães, nem faz das criancinhas pessoas mais felizes. E mesmo ainda pior, é que isto já não pára, e é impossível ficar de fora desta montanha russa.
Raios nos partam, é só o que vos digo.  Raios nos partam!


19 comentários:

  1. Mesmo...e se nos atrevemos a fazer algo por nós lá vem a culpa....

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    1. É mesmo. Quando nos atrevemos a não os por à frente de tudo...a culpa.

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  2. Quanto a "pedinchices", quero este brinquedo, quer este jogo, quero fazer isto, e comer aquilo, penso que ainda estou imune. Com quatro anos ainda sou eu que mando cá em casa e se quiser amuar tem um quarto lindo onde pode chorar à vontade. Ainda ontem antes do jantar, queria ver desenhos animados enquanto o pai estava a ver outra coisa e nós não deixámos. Saiu da sala num berreiro, a dizer que ia para o quarto porque nós NUNCA a deixamos fazer nada. Vai filha, vai, que o teu ir tem graça. Passados 5 minutos calou-se. Fui lá eespreitar e estava entretida com as bonecas, já nem se lembrava. Tirando um ou outro episódio, as birras deles só têm a importância que lhe quisermos dar.
    Também se pode dar o caso de a mandar para o quarto pensar na sua vida e no que fez, porque se portou mal, e ouvir "A vida é minha, só penso se quiser, e se eu quiser vou pensar em bonecas, porque ninguém sabe o que é que as pessoas estão a pensar". É sair de fininho e não deixar que ela nos veja a rir.

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    1. Grande verdade, ninguém sabe o que as pessoas estão a pensar. Vai longe, essa miúda.

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  3. Para quem não é pai, como eu, e está de fora, é muito fácil fazer essa crítica e encontrar os culpados nos pais. Aplaudo teres essa consciência, porque provavelmente a esmagadora maioria não a tem. Não obstante, é um trabalho duro, que nunca se sabe o que é o mais correcto. Tenho a certeza que tens feito o que achas melhor e, acima de tudo, com coração. Por isso, tem sido um bom trabalho de certeza. Não te martirizes tanto :)

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    1. Não me martirizo. São elas pá, as criancinhas.

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  4. Uf! Finalmente alguém que pensa como eu, eu que sou mãe de 2, eu que estava a incorrer nesse erro, eu que retrocedi e alterei a forma de os educar, eu que acabei a achar que sou uma ma mae, eu de quem os outros acham que sou ma mãe. Eu que também sou uma pessoa e não vivo em função dos filhos...

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    1. Disseste tudo, também somos pessoas e não devemos viver em função dos filhos. Por enquanto não sou capaz, mas sei que é o que está certo.

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  5. Já tirei a miúda da natação. Ao fim de semana (que é só um dia porque trabalhamos ao sábado) ninguém sai de casa sem ser eventualmente para ir à missa. Estou no bom caminho.

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    1. Mea cukpa, mea culpa, durante a semana chego a casa a horas de lhes dar o jantar e, e...Se não for ao fim de semana que as levo a algumas actividades, nunca levo!

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  6. Não podia concordar mais, e até me podem lançar tomates podres porque 'ah, tu não és mãe, não sabes'. Mas a verdade é esta: passo a vida a ouvir a minha geração a queixar-se de não terem tempo para nada, mas incapaz de dar a volta à coisa. Todos os meus amigos pais são escravos da agenda dos filhos, e pelo caminho esquecem-se que são pessoas, que o fim-de-semana também é seu, e que merecem mais que esse trabalho constante de ganhar para os filhos, ser seus motoristas, amas, professores, enfermeiros, tudo, tudo. O equilíbrio, é possível ;)

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    1. Parece que se não formos "escravos" dos meninos não somos bons pais. Penso que ainda falta perceber que estamos a tornar as crianças escravas daqueilo que projectamos nelas. Será que precisa mesmo de ginástica, natação, inglês, judo e ballet? Com 4 anos, a minha já tem educação fisico-motora, inglês e música na escola, durante o horário escolar, faz parte do programa. Depois das 4 da tarde só brinca. Às terças e quintas tem natação por opção nossa. Chega e sobra! Ao fim de semana passeia-se e brinca-se com os primos. Tem muito tempo - a vida toda - para não ter tempo para se coçar.

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    2. Izzie...Disseste tudo, amas, motoristas, enfermeiros, sopeiras, criadas de dentro e de fora, palhaços, e quando os gajos se deitam, parece que também somos pessoas.

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  7. Lá em casa ( com uma de 7 e um de 3) quem manda são os adultos, pode haver birras e berros e amuos e o que for, mas quem manda são os grandinhos. Não há volta a dar. As actividades fora da escola (natação e música) são durante a semana. Os últimos fins de semana são passados em casa, porque com a chuva que tem estado, para onde se vai? Para shoppings? Mais vale matar-me logo. Quando o tempo está bom dá-se uns passeios claro, mas adequa-se as nossa vontades e as deles. Chegamos a um ponto em que as criancinhas é que ditam para onde vão de férias, o que se compra no supermercado, onde vão jantar, com quem convivem etc...As pessoas andam a passar-se, vejo cada ceninha. Já lhes disse mais do que uma vez, quando fores grande fazes o que queres até lá mando eu. Vai tudo do começar, quando mais se cede mais eles trepam. Atenção que eu não sou nenhuma ditadora ( e na hora de dormir fazem de mim gato sapato), apenas tenho bem noção de quem é a mãe e quem são os filhos, e mete-me um pouco de confusão a falta de autoridade que certos pais têm hoje em dia.Tenho uma expressão que costumo usar com os meus filhos quando começam a insistir com o "eu quero" eu também queria ganhar o euromilhões e nickles. O mais pequeno ainda não registou mas a mais velha já sabe que não vale a pena insistir eheheh.

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    1. Na minha casa, também mandam os adultos, Mas aqui esta adulta manda ir à ginástica, à música, à catequese. E o piorzinho, é que farto-me de correr para não faltarem a nada, e muitas vezes, elas preferiam ficar em casa a não fazer nada.

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  8. Essas "criancinhas" deveriam ter era a infância que tive! Fazem a tropa todinha!!!
    E se forem abandonadas pelo pai como fui, ui!!! serão psicopatas e assassinos! como eu!! Assim, serão todos doutores e engenheiros, etc.

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    1. É verdade, não têm qualquer tolerância à frustação.

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  9. Este teu texto está fantástico. Mesmo. Parabéns.

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  10. Podes crer, somos as escravas de toda a gente e, mais que isso, do nosso sentimento de culpa.

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